Esperança

O que queremos, afinal? O que tanto queremos que nos faz levantar todo dia e tentar ser alguma coisa sempre meio igual a sempre ou sempre meio diferente de sempre ou sempre meio normal que quer ser meio esquisita ou meio esquisita querendo ser mais normal, ou... Tá me entendendo? O que tanto queremos? A gente acorda todo dia! E vai! Todo dia! Mas vai aonde?

Uma pessoa de 80 anos foi! Todo dia, cara! No total ela foi 29.200 vezes! 29 mil!!! Ela tentou vinte e nove mil vezes! Mas tentou o que? O que é que esse senhor tanto quer, gente?


Onde Satanás afrouxou a gravata

A estrada os apunhalava com mais.
O horizonte nunca havia os entregue tanto.
O novo cortava por entre seus cabelos;
encharcava seus pulmões.
E eles riam de medo.

O que era mito, já não é.
Feito paisagem entre cortinas,
se exibia, solene, um mistério.
E o fim de tudo parecia como aquilo.
E eles riam de coragem.

Que dia!

Um estrondo e cacos voando fizeram com que caísse, das alturas dos seus pensamentos  (não tão altos assim), sentado no banco do carro. Já estava quase no trabalho e não tinha sequer se dado conta, até que um acidente de trânsito o sugou para a realidade. Acordou, beijou o mulher, disse bom dia/te amo/qualquer-coisa-dessas-razoáveis, lavou o rosto, lavou os dentes, mijou, colocou o pau pra dentro da calça, aquela última gotinha molhou sua cueca, saiu sem tomar café como de praxe, ligou o carro, ligou a música, abriu o portão, fechou o portão... Mas não notou nada disso. Porque era o que fazia sempre, desde que se lembra. Na verdade nem lembra, nem pensa, nem importa. Mas era o que fazia e faria. Sabia disso, mas não pensava, não importava. Importar até importava, mas não pensava.

Passou lentamente pelo acidente. Não por segurança, mas porque queria ver. É bom ver acidente. Ele gosta. Passou pelos carros batidos, ninguém morto. Acelerou um pouco mais porque precisava chegar ao trabalho logo e contar para as pessoas. Era um homem de sorte, havia visto um acidente. Algo havia acontecido em sua vida. E não foi meramente "passar por um acidente", ele viu, na hora que aconteceu! Diria "Eu vi bem na hora!" Que dia, amigos! Que dia!


às vezes, simplesmente acaba

entranhas
que ora forjaram nada
que não poesia,
e tudo
que não o supérfluo,
hoje
tão secas
que chegam a queimar
ao riso do sol,
e a rachar
ao sopro do céu de abril.

fornalha velha?
ferreiro cansado?
ou não se degola mais
pelo fio da palavra?
o fato é que não se fundem mais versos
como antigamente.

The Sky You Carry

Baby, I got to tell you this,
just don't tell anyone!
I confess that I have never
played in major tones.

'cause it seemed to be
too sunny and colourful for me.

But since I saw the sky you carry
inside your pretty eyes,
I play some happy things like this
and it just look so fine!

Maybe this is
what it supposed to be...

Maybe, as the bite in a candy, this feeling is so simple.
Maybe you're the reason why I feel my fingers to tingle.

Can I take you by the hand
and never take you back?
Can I think about you while
I'm writing this cute track?

'cause I can't no more
avoid to think what I'm sure!

Maybe, as the bite in a candy, this feeling is so simple.
Maybe you're the reason why I feel my fingers to tingle.

Maybe, as the bite in a candy, this feeling is so simple.
Maybe, after all, baby, neither of us is so single...

Deixe pra amanhã o que não se quer fazer hoje

Tudo que vejo o dia todo são papéis.
Papéis que não me servem de nada.
Juro que qualquer rolo de papel higiênico,
de qualquer banheiro,
de qualquer posto de gasolina do mundo,
sujo, e fedido, e desconhecido, e necessário,
vale mais que todos os papéis em cima dessa mesa.

Mesmo assim estou aqui. Sentado de fronte aos papéis.
De fronte ao monitor. Rodeado por carimbos e canetas.
Cercado de gente que pensa a mesma coisa que eu.
Ou ainda pior,
gente que também está angustiada com isso tudo,
mas não pensa em nada disso.
Tem também os que gostam dos papéis,
e dos carimbos, e das canetas,
e das anotações coloridas nos calendários.
Olho pra todos esses fatos e penso:
Por que?

O que me impressiona é que tudo se resolve.
Tem várias coisas que precisam ser feitas,
bem aqui, nos montes de papel em ambos os lados.
Que atitude eu tomei?
Bem, primeiro fui ler Bukowski,
Aí fui buscar mais café.
Me deu vontade de escrever;
O velho safado sempre dá.
Agora vou fumar, lá fora.
Os papéis... amanhã eu vejo.

O Taciturno


Feito satanás, da cruz, se esquivou a vida inteira.
Cismou com a incerteza,
e agiu como se deduz:
Desceu velas com dureza, de maneira bem grosseira.

Se escondeu da tempestade.
Quis pular de trégua em trégua
feito um jovem saltimbanco.
Tão nu quanto uma palavra,
que um poeta descalavra,
só rompeu onde viu flancos, evitando solavancos.
Forjou risos várias léguas,
alegando sanidade.

Um marujo e seu deserto;
Imensidão implacável.
O destino mais que certo
e o sonho impraticável,
ficam como céu e mar, no horizonte, a imbricar.

Solto em vasta insensatez
não topou com a liberdade.
Pra dar fim a tal linhagem, com censura e sem saudade,
fez um risco rente à gorja;
Deu vermelho à paisagem.
Com traçada previsão, foi-se um nobre desta corja
de muitos sem a lucidez
dos poucos com tal coração.

Ser humano é muito bicha

Como é que se vira homem?
Ora, mentindo.
Olhando no olho.
Dizendo, descaradamente:
Como muita mulher!
Não broxo, não arrego, não vacilo! Dou duas sem tirar; no mínimo.

Minha mãe não lava minhas cuecas!

Homem entende, ganha, manda, dá as cartas.
Nunca chora sozinho olhando a chuva. Que tipo de maluquice é essa?

Homem mostra! Nunca assiste.
Nunca é um idiota; um qualquer.
Quando tolo, sozinho e estúpido,
transforma isso tudo em nobreza, da mais fina.

Homem que é homem arrepia!

Se lê poesia, dá o cu e gosta.
Se as escreve!? Aí dá o cu e goza!

Ser homem é qualquer coisa.
Menos ser humano.
Porque, convenhamos,
ser humano é muito bicha!

Realidade meia boca

Sentado no sofá, na sua hora e quinze de intervalo, puxou o jornal dobrado sobre a mesa. Não costumava fazê-lo, achava enfadonho o ato de ler jornais. Afinal não havia ali nada, senão notícias, coisas que aconteceram ou que provavelmente aconteceriam. De que lhe servia isso? Se dois desconhecidos haviam batido o carro e morrido, ou não. E se fossem conhecidos, também, de que lhe adiantaria saber? Em meia hora havia de bater o ponto e voltar ao labor escroto que pagava suas contas. Após o fim da jornada havia de correr até a lotérica pagar algumas delas, inclusive. De que lhe adiantava saber se a gasolina ia subir, ou quem estava na frente na corrida política? Se havia de subir, que subisse. Quem houvesse de vencer, que vencesse.

Mesmo assim, movido pelo tédio inabalável que por vezes o arrebatava, abriu o jornal, num ato estúpido, de tão inconsciente.

Havia uma notícia sobre um menino sírio que foi encontrado morto numa praia na Turquia. Seus pais estavam fugindo da Síria e o barco afundou. Até aquela notícia o oprimia, pois não podia sentir-se um pobre diabo, como estava habituado a sentir-se. Afinal, ele estava ali, sentado, empregado, lendo um jornal, enquanto pessoas perdiam seus filhos afogados na tentativa de fugir da guerra e levá-los para algum lugar seguro num ato intenso, real, de desespero e coragem.

Pobre dele. Estava morto. Inerte. Não o deixavam sequer achar sua vida um lixo. E ele próprio não conseguia ver nela nenhum fio de brio e privilégio.

Não pode haver paz dentro de tamanho absurdo e de tão implacável pacatez.

Perfeição

A graça de dirigir está nas curvas, não na reta.










O sorriso orquestrado,
os dentes morbidamente brancos,
a expressão intimidante
que distancia o objeto,
do admirador.

Um ser que confunde.
Desafia a nossa lógica.
Nos aprisiona alguns segundos.
Nos faz pensar: "Será?"
"Existe?"

Mas não pode.

Não é mais mulher.
Não é mais humana.
Não é mais real.
E por por ser tão fantástica
perdeu a graça.